Oh! Que nas florestas do amor meu coração possa embrenhar-se! Porque ser poeta não é amar, mas querer amar; amar este amor que causa espasmos.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Afrodite

Os lábios, convulsos,
Querem beber a vida em beijos
Nos lábios teus.
Movidos por impulso,
Lançar-te ao adejo,
Entregue aos desejos
De um venturoso himeneu!

Os eflúvios do lírio
Ao orvalhar da madrugada
São gotas de delírio
Que borrifo em minha amada.
Oh! Desvario:
Dormir na alvorada
Com os olhos ainda derramando
Lascívia da noite acabada!

Tu me viste ao relento,
Roto e macilento,
Caminhando sem porvir.
Entregaste-me o coração,
Ainda frio e sonolento,
Contudo com ânsia de sorrir.

Alma pura,
Que nunca sentira o ressaibo da saudade;
Que nunca secara as lágrimas
Por causa de um forasteiro...
Embala-te aos braços da saciedade,
Aos alentos da mocidade
Deste amor verdadeiro!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Desabafo

É muito querer e pouco ter. Mas não é apenas querer ter; é querer ser e não conseguir ser. Isso é ainda mais doloroso. Pois quando se deseja ter algo, pode ser alguma coisa absurda. Desde um livro até uma ilha; de uma puta até um amor. Mas quando se quer ser algo, geralmente, este algo é simples. Básico, talvez. E não conseguir ser, descubro agora, é uma frustração.
A arma mais devastadora de corações é a indiferença. Mesmo cercado de pessoas, de todos os tipos, sinto-me só. Percebo que muitas destas que me rodeiam não me acrescentam nada; nem me tiram coisa alguma.
O fato é: Não sei a razão pela qual minha vida se cruza com outras; não sei o motivo pelo qual se abrigam em mim, nos meus beijos. Afundo-me na própria solidão. Sou apenas mais um na multidão atordoada. E o pior: Eu sou o mais atordoado. Pior: Estou no caminho contrário. Este estar-no-mundo me faz mal.
Como alguém pode ser frio com outrem? Como pode falar sem olhar nos olhos? Vaidade! Hipocrisia! Vejo almas vazias.
Viver não é estar vivo. Viver é enxergar: enxergar o que se sente, o que se ouve; é enxergar-se. É sentir o que se enxerga. E as pessoas cegas? Não digo cegas dos olhos, mas cegas da alma.
Relacionamentos feitos em cima de promessas jamais darão certo! Cumplicidade de menos e demasiadas cobranças. Estou extenuado. Mas ainda sinto dor.
Os momentos agradáveis foram todos dispensáveis. Se eu não tivesse amado, meu coração não se sentiria falto, posto que fosse frio. E a única coisa irreversível é a frialdade. E, talvez, a morte. Justamente, um cadáver é gelado.
É a folha seca que cai da árvore, sempre no mesmo lugar. Serve de quê?!
Preciso de segunda chance, mas sei que a terceira será necessária em pouco tempo. E perdoar engendra uma sensação de superioridade; esquecer é servidão. Assim, um simples aprendizado transforma-se em competição. Não se pode partilhar. Isto me dói.
Caralho! É tão difícil ser companheiro?
Não sei que esperança pulsa neste peito. Mas ainda há pessoas boas.
Também sou culpado, mas alego impotência. Sou fraco. Ouço vozes que destilam venenos, e por isso me calo. Eu minto para mim, mas quero ser a fênix. O sol brilha acima de minha cabeça, porém ao lado dele há os arrogantes.
A eternidade não me agrada, pois ela é indiferente ao tempo. E tempo é permissão. E o infinito não me agrada, pois ele é indiferente ao espaço. E espaço é possibilidade.
Hoje sei que há gritos calados. Sei, também, que há prantos extremamente secos. E que estes não possuem valia. O silêncio é uma forma de conversar...
Cresci. Atualmente, sou capaz de perdoar uma traição. Percebi que algumas são sinceras, principalmente para seus autores. Quando muito, para todos.
Há confusão entre sinceridade e oportunidade, entre verdade e oportunidade. Sou acometido por novas dores velhas. Sinto-me ruído; arruinado.
Sou vulnerável. Possuo um coração passional e não consigo caminhar sobre abismos. Não fui capaz de manter-me de pé, quando o caminho se estreitava. Tentei apoiar-me em algo, mas no escuro não distingui a mão que me segurava. Nem a que me estrangulava.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Quando

Quando pousas tuas mãos
Neste peito que pulsa de amor,
Sentes nelas o tremor
Que reforça a pulsação?

Quando recolho tua face fria
Junto ao meu peito arfante
E sinto em teus olhos cintilantes
A lágrima do amor que se anuncia...
Não sentes meu afã
Rogando-te um amanhã?

Quando repouso meu olhar
No teu coração...
Quantas sombras se vão!
Como é doce ver-te caminhar!

És capaz de matar um mancebo
Que te fita os olhos pela primeira vez.
E, vidrado em tua tez,
Desvaira, sonha, morre de languidez!

Embalde reprimo os sonhos
Que me trazem uma visão:
Estás à beira da morte, acima da perfeição
E me acenas com um sorriso triste e medonho!

Oh, amada! Oh, moribunda!
Descansas agora a vida
Sob minhas palavras sofridas
Em solidão profunda!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Noite insana

Por quem suspiras,
Virgem dos lábios de mel?
Tão forte respiras,
Mais alto que a lua no céu!

Se, febril, o teu peito arqueja,
Por amor o meu se desvanece...
Se os meus lábios tua boca beija
Meu olhar de moribundo se aquece.

Oh! Ainda há uma esperança
Nos sonhos deste amor:
Fazer valer uma lembrança
Da mocidade, ainda pura, do pecador!

Que na fronte de minha amada
Eu possa sorver-lhe a última gota de lágrima!
E suspirar, gemendo e chorando,
Na ventura das lágrimas trocadas!

Como o céu é lindo!
E a lua parece nos guiar
- sorrindo!
Com seu pálido brilho a nos acalentar.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Intrínsecos

Quando aos olhos de uma vida sofrida
Um momento é necessário,
Evoca-se a morte, para que um infortúnio
Não o apague do imaginário...
Vinha com o corpo macilento,
Jorrava seus desalentos
E apoderava-se do meu leito ermo
Sem ouvir o meu grito calado!
Cabelos ao vento,
Sentimentos alados,
Meu peito sedento
Por teu seio suado!
Ó, estrela da juventude!
Colecionas virtudes,
Que tua mente ubíqua
Com a lua oblíqua
Desvendam em meu âmago
Todos os segredos!...
Não tenhas medo,
Não te esqueças de mim!
Eu sei que é cedo,
Mas é nosso fim.
Vá! Casa-te com minh’alma!
Agora que a eternidade
Apresenta-se diante de nós...
Fiquemos a sós!
Que o derradeiro suspiro de um homem honrado
Seja causado por amor!
E que a esperança possa sorrir
Ao contemplar teu alvor!
Que esta alma possa usufruir
Os benefícios que a tua, ó bela virgem,
Há de me conceder,
Quando nossa morte, enfim, alvorecer.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Louvor à uma deusa

Nem na mais doce quimera fui capaz de conceber-te;
Admirar-te o cálido sorriso e o lânguido olhar.
Eis, porém, que hoje foste inteiramente minha
Neste ópio que é amar.
Um amor vespertino! Tão casto!
Como pôde escolher este coração tão vasto?
Este peito tão cheio, e, portanto, gasto.
Para acomodar-se e tornar-lhe fausto.
Fantasiei, sempre ébrio de desejo,
O momento em que te daria um beijo
Tão adiado por teu nobre pejo
Até o momento exato do real ensejo:
Ao olhar da Lua!
Distante da rua, dos amores ciganos;
Dos corações insidiosos e profanos;
Dos amores de sarjeta
Que assassinam teu mundo violeta
Sem a piedade que tu devotas aos fracos, como eu.
Amo-te, isto ninguém me há de tirar.
Pois sabes, mulher, que a eternidade não é tão distante:
Está no teu olhar.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Extremo

Este amor que me consome
Levar-me-á ao túmulo.
Meu coração que sente fome
Não terá mais um crepúsculo.
Oh! Uma memória! Quão reduzido torna-se o homem
Quando não é capaz de segurar o ímpeto
Do amor dum anjo que não lhe olha;
Que não lhe toca!
Consagrado és tu, amor que chegas ao limite comigo;
Ao limite da vida que escorre;
Que morre!
Dize, coração: “Sou mesmo teu amigo!”
Um bálsamo, oh, um bálsamo!
Qual consolo tem um desvalido
Que vê o derradeiro sorriso nos lábios de uma santa?
Que vê no céu uma nuvem negra que paira sobre si
E sente em sua fronte uma torrente de lágrimas?!
O mártir do amor eu serei!
Agora que a eutanásia considera-me um rei
Posso ir em paz – sem paz!
Adeus, vida! Não te desejo mais!
Se ao menos pudesses cantar-me uma nênia;
Terminaria honrada a minha existência;
Como último suspiro a palavra que balbucio com ardor:
Morro por ti, morro de amor.